Drex e IA: o que o novo rumo do projeto significa para a tesouraria
O Drex deixou de ser 'real digital de varejo' e virou infraestrutura de tokenização e contratos inteligentes. Veja o que muda para o financeiro.
Em fevereiro de 2025, o Banco Central publicou o relatório da primeira fase do piloto do Drex com um recado desconfortável: nenhuma das soluções de privacidade testadas — incluindo o Anonymous Zether (J.P. Morgan/Consensys), o Rayls (Parfin) e o Starlight (EY) — conseguiu proteger o sigilo das transações sem, ao mesmo tempo, cegar a autoridade monetária. Em uma das avaliações, a criptografia usada chegou a aumentar a complexidade computacional em cerca de 50 vezes, inviabilizando operações em tempo real. Esse obstáculo técnico, somado a custos e questões regulatórias, mudou o destino do projeto.
O resultado, ao longo de 2025, foi uma reformulação profunda. O Drex que muita gente esperava — uma "moeda digital de varejo" no celular, irmão do Pix — não é o que está sendo construído. Para quem trabalha com finanças corporativas, entender esse novo rumo importa mais do que parece: o que sobrou do Drex é exatamente a parte que mexe com tesouraria, capital de giro e pagamentos. E é justamente nessa camada que a inteligência artificial entra.
De "real digital" a infraestrutura de tokenização
A virada aconteceu no segundo semestre de 2025. O Banco Central abandonou, na primeira entrega, a dependência de blockchain e passou a tratar o Drex como uma plataforma de tokenização de ativos e contratos inteligentes, com arquitetura tecnológica "agnóstica" e retomada prevista para 2026. Nas palavras de Breno Lobo, do Departamento de Competição e Estrutura do Mercado Financeiro do BC:
"A gente deu um passo para trás. Não é uma CBDC. É uma infraestrutura para permitir contratos inteligentes."
Na prática, o foco deixou de ser o consumidor final e passou a ser a eficiência entre instituições: registro e reconciliação de garantias (gravames), tokenização de ativos financeiros e liquidação integrada. O cidadão não vai "abrir uma conta Drex" tão cedo. Mas a empresa que toma crédito, antecipa recebíveis ou negocia com fornecedores vai sentir os efeitos — porque é o encanamento do crédito e dos pagamentos corporativos que está sendo redesenhado.
Vale a comparação com o Pix. O Pix resolveu o problema de mover dinheiro de forma instantânea e barata. O Drex, no formato atual, mira um problema diferente: condicionar e integrar a movimentação de dinheiro à transferência de um ativo ou ao cumprimento de uma regra. Não é "mais um meio de pagamento" — é uma camada de programabilidade sobre as operações financeiras.
O conceito-chave: liquidação atômica e pagamento programável
O termo técnico é liquidação atômica (ou DvP, delivery versus payment): a transferência da propriedade de um ativo e o pagamento acontecem na mesma operação, de forma simultânea e indivisível. Ou o negócio inteiro se conclui, ou nada acontece. Não existe o limbo em que você pagou e ainda não recebeu — ou entregou e ainda não foi pago.
O exemplo mais citado no piloto é a compra de um veículo: hoje, a transferência do dinheiro (no banco) e a transferência da posse (no registro) são processos separados, com risco e burocracia no meio. Num contrato inteligente, o pagamento só é liberado quando o registro da posse é confirmado — e vice-versa. Tudo numa transação só.
Para o financeiro, o que isso destrava é o pagamento programável: liquidações que disparam automaticamente quando uma condição predefinida é cumprida — uma entrega confirmada, um vencimento, uma meta atingida, um documento validado. É a diferença entre "pagar" e "pagar exatamente quando, e somente se, a regra do contrato for satisfeita".
Os casos de uso que olham direto para o caixa da empresa
Na segunda fase do piloto, o BC recebeu 42 propostas de 16 consórcios e selecionou 13 casos de uso centrados em contratos inteligentes. Vários miram dores clássicas de tesouraria e capital de giro:
| Caso de uso | O que resolve | Quem testou |
|---|---|---|
| Cessão de recebíveis | Antecipação e negociação de recebíveis tokenizados | Consórcio ABC + Inter |
| Crédito com garantia em CDB | Usar aplicações tokenizadas como colateral automático | BB, Bradesco, Itaú |
| Crédito com garantia em títulos públicos | Colateral em títulos para liberar crédito mais barato | ABBC, ABC, MB |
| Comércio internacional (trade finance) | Tokenizar documentos de embarque e fracionar pagamento | Inter |
| Financiamento de veículos | Liquidação atômica unindo posse e pagamento | B3, BV, Santander |
Os números do mercado adjacente ajudam a dimensionar a aposta. A tokenização de ativos no Brasil, sob a regra da CVM, saltou de R$ 0,3 bilhão em 2023 para R$ 2,5 bilhões em 2024 — um crescimento de mais de 8 vezes em um ano — com estimativa de R$ 4,2 bilhões para 2025, segundo a Núclea. Globalmente, a McKinsey projeta que os ativos financeiros tokenizados cheguem a US$ 2 trilhões até 2030. O Drex é a peça que conecta esse universo tokenizado à liquidação em moeda de banco central.
Um detalhe brasileiro reforça o timing: a duplicata escritural — a versão 100% eletrônica da velha duplicata comercial — terá adoção obrigatória escalonada de janeiro de 2026 a janeiro de 2028, conforme o porte da empresa. Recebível padronizado e digital é matéria-prima ideal para crédito tokenizado mais rápido e seguro.
Onde a inteligência artificial entra
Pagamento programável resolve o "quando" e o "se". A IA resolve o "decidir" e o "orquestrar". É a combinação dos dois que muda o jogo para a tesouraria.
Pense numa estrutura em camadas. Embaixo, a infraestrutura de liquidação condicional (o que o Drex pretende oferecer). Em cima, agentes de IA que monitoram dados, avaliam condições e disparam ações:
- Tesouraria mais autônoma. Um agente de IA pode varrer recebíveis tokenizados, comparar o custo de antecipar contra a projeção de caixa e acionar a antecipação apenas quando faz sentido financeiro — dentro de limites e regras definidos pelo time. A decisão repetitiva sai da mesa do analista.
- Conciliação que quase desaparece. Com liquidação atômica, pagamento e entrega ocorrem juntos e ficam registrados no mesmo evento. Some a defasagem que hoje obriga conferência manual. A IA fecha a malha lendo os registros, e a conciliação deixa de ser caça ao tesouro.
- Crédito orquestrado por dados. A convergência de tokenização, Open Finance e Drex cria uma base rica: ativos tokenizados como garantia, dados abertos alimentando modelos de risco e liquidação garantida em moeda de banco central. A IA precifica risco em tempo real; a infraestrutura executa a liberação do crédito.
Uma ressalva honesta: a integração formal entre IA e Drex ainda é mais promessa do que produto. Em 2023, o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, chegou a falar em um "bloco de inteligência artificial em cima da plataforma", mas sem detalhar soluções concretas. Os exemplos de agentes autônomos e pagamentos agênticos hoje vêm do mercado e de fornecedores de tecnologia, não de implementações oficiais do Banco Central. O que existe é uma direção clara — e tempo para se preparar.
O que ainda não está resolvido
Tratar o Drex como solução pronta seria repetir o erro de quem o anunciou como "Pix turbinado" em 2023. A privacidade, que travou o projeto, continua sendo o nó técnico central: conciliar sigilo bancário, LGPD e a capacidade legal de o BC rastrear operações é difícil — e foi por isso que o blockchain saiu da primeira entrega. O lançamento da versão inicial é esperado para 2026, em formato mais simples e voltado a instituições, não ao público.
Para o CFO, a leitura correta não é "esperar o Drex chegar". É reconhecer que as competências que o Drex vai exigir — tokenização de ativos, leitura de contratos inteligentes, automação de decisões financeiras com IA — são as mesmas que já agregam valor hoje, com ou sem Drex. Quem desenvolve essa musculatura agora chega pronto quando a infraestrutura amadurecer.
Próximos Passos
- Mapeie seus ativos "tokenizáveis". Liste recebíveis, duplicatas e garantias que hoje geram crédito ou capital de giro de forma manual e lenta. São os candidatos naturais a ganhar agilidade com tokenização e liquidação programável.
- Prepare-se para a duplicata escritural. Verifique em qual fase do cronograma (jan/2026 a jan/2028) sua empresa entra na obrigatoriedade e ajuste sistemas e processos antes do prazo — é a porta de entrada para crédito tokenizado.
- Construa a base de dados agora. Pagamentos programáveis e agentes de IA só funcionam sobre dados limpos e integrados. Padronize cadastros, conecte ERP e bancos e adote Open Finance para ter a matéria-prima pronta.
- Faça um piloto de automação independente do Drex. Comece com um agente de IA para uma decisão repetitiva de tesouraria (ex.: antecipação de recebíveis dentro de regras claras). A lógica de "regra + execução automática" é a mesma que o Drex vai exigir.
- Acompanhe as fontes oficiais. Siga o piloto Drex no site do Banco Central e os relatórios das fases. As decisões de arquitetura de 2026 vão definir quais casos de uso saem primeiro do papel.
Fontes:
As camisas de futebol conectam historia dos clubes, temporadas e memoria dos torcedores. Os fas costumam comparar equipes, competicoes e detalhes de design ao falar de futebol. A leitura permanece ligada a times, torneios e cultura dos torcedores. Nesse contexto, camisas de futebol para colecionadores se relaciona naturalmente com uniformes e colecoes.
- Agência Brasil — Drex enfrenta desafios de privacidade na primeira etapa, diz BC
- Banco Central reformula Drex e adia blockchain para 2026 — Mix Vale
- Finsiders Brasil — BC divulga os 13 casos de uso da nova fase do Drex
- Livecoins — Transação atômica via contratos inteligentes no Drex
- McKinsey via Exame — Tokenização de ativos chegará a US$ 2 trilhões até 2030
- Exame — Drex e a integração com inteligência artificial
- Banco Central — Piloto Drex