NTT DATA: 86% das empresas latinas investem ou exploram IA generativa
Estudo NTT DATA e MIT Technology Review mostra adoção acelerada na América Latina, com crescimento de 25% em IA tradicional.
O relatório "La Inteligencia Artificial en América Latina 2025", elaborado pela NTT DATA em parceria com o MIT Technology Review, traz um dado que merece destaque: 86% das empresas latino-americanas já investem ou estão em fase de exploração de IA generativa. São 58% com implementações ativas e 28% em fase de exploração. Somado a isso, 90% consideram que o impacto da IA generativa será "revolucionário" para seus negócios.
Esses números sinalizam que a América Latina não está apenas acompanhando a tendência global — está se movendo com velocidade comparável a mercados mais maduros. Mas a análise detalhada revela que a maturidade ainda é baixa, e há uma enorme diferença entre "explorar" e "dominar".
O panorama completo da adoção
O estudo da NTT DATA e do MIT Technology Review oferece uma radiografia detalhada de onde as empresas latino-americanas estão na jornada de IA:
IA tradicional: crescimento de 25% ano a ano
A adoção de IA tradicional (machine learning, analytics preditivo, automação baseada em regras) cresceu 25% na região no último ano. Esse é o alicerce sobre o qual a IA generativa está sendo construída — empresas que já têm infraestrutura de dados e modelos preditivos estão mais preparadas para dar o próximo passo.
IA generativa: crescimento de 23% ao ano
A IA generativa cresceu quase 23% em adoção, partindo de uma base menor mas com aceleração forte. O salto de integração foi de 58% para 71% entre 2020 e 2023, e continua em trajetória ascendente.
A pirâmide de maturidade
O dado mais revelador do estudo é a distribuição por estágio de maturidade em IA generativa:
| Estágio | Percentual |
|---|---|
| Em exploração | 28% |
| Implementações iniciais | 43% |
| Implementação avançada | 9% |
| Líder em adoção | ~6% |
| Não investem | ~14% |
Ou seja, quase 72% das empresas que usam IA generativa estão nos estágios iniciais. Apenas 6% se consideram líderes. Isso revela que, embora a adoção seja ampla, a profundidade ainda é limitada. A maioria está testando, não transformando.
México e Brasil na liderança
O estudo destaca México e Brasil como os países com maior concentração de empresas apostando fortemente em IA:
México
- Lidera em número de empresas fazendo investimentos significativos em IA generativa
- O ecossistema de inovação está se beneficiando do nearshoring e da proximidade com o mercado norte-americano de tecnologia
- Setores como serviços financeiros, telecomunicações e varejo lideram a adoção
Brasil
- Maior mercado absoluto de IA da região, com ecossistema de startups maduro
- Fintechs brasileiras (Nubank, Stone, PagSeguro) são referências globais em uso de IA
- O setor financeiro é, historicamente, o mais avançado em adoção tecnológica no país
Onde a IA generativa está sendo aplicada
O estudo mapeia os principais casos de uso de IA generativa nas empresas latino-americanas:
Atendimento ao cliente
O caso de uso mais comum. 86% das empresas que adotam IA generativa a utilizam para transformar o atendimento ao cliente — chatbots avançados, personalização de respostas e resolução automatizada de problemas.
Geração de conteúdo e comunicação
Criação automatizada de relatórios, comunicações internas, materiais de marketing e documentação técnica. Para departamentos financeiros, isso se traduz em:
- Geração de narrativas para relatórios de resultados
- Criação de resumos executivos a partir de dados brutos
- Documentação automatizada de processos e controles
Análise de dados e insights
Modelos de IA generativa complementam analytics tradicionais ao:
- Interpretar grandes volumes de dados e gerar explicações em linguagem natural
- Identificar padrões que modelos supervisionados não capturam
- Sugerir hipóteses e linhas de investigação para analistas financeiros
Automação de processos internos
Desde a classificação de documentos até a geração de código, a IA generativa está sendo integrada a workflows internos para:
- Acelerar processos de onboarding e KYC
- Automatizar a extração de dados de contratos e faturas
- Gerar código para automações e integrações
Os desafios que persistem
Apesar do otimismo (90% veem IA como "revolucionária"), o estudo identifica obstáculos significativos:
Qualidade de dados
O problema mais citado. Empresas latino-americanas frequentemente operam com dados fragmentados entre múltiplos sistemas, formatos inconsistentes e históricos incompletos. IA generativa amplifica os problemas de dados — se a entrada é ruim, a saída é pior.
Talentos
A demanda por profissionais que combinem conhecimento de domínio (finanças, contabilidade) com habilidades de IA supera amplamente a oferta na região. O gap é especialmente agudo em empresas de médio porte que não conseguem competir com big techs por talentos.
Segurança e privacidade
Preocupações sobre o uso de dados sensíveis em modelos de IA generativa são particularmente relevantes em setores regulados como finanças. Questões como:
- Onde os dados são processados (soberania de dados)
- Quem tem acesso às saídas dos modelos
- Como garantir que informações confidenciais não vazem via prompts
- Conformidade com LGPD e regulações setoriais
ROI ainda incerto
Embora o otimismo seja alto, muitas empresas ainda não conseguem quantificar o retorno de seus investimentos em IA generativa. A fase de exploração, por definição, gera mais aprendizado do que receita.
O que os 6% líderes fazem diferente
O estudo permite inferir o que separa as empresas que se consideram líderes (6%) das demais:
- Investem em infraestrutura de dados antes de investir em modelos de IA
- Integram IA ao core business, não como projeto lateral
- Medem resultados financeiros concretos (redução de custo, aumento de receita, ganho de produtividade)
- Capacitam profissionais de negócio, não apenas equipes técnicas
- Tratam governança como habilitador, não como freio — definindo políticas claras de uso que aceleram a adoção em vez de inibi-la
O que isso significa para finanças corporativas
Para líderes financeiros na América Latina, os dados do estudo NTT DATA/MIT trazem implicações claras:
- Você provavelmente já está em algum estágio de adoção. Com 86% das empresas investindo ou explorando, a pergunta não é "se", mas "quão rápido".
- A maioria dos concorrentes está nos estágios iniciais. Com 72% em fases iniciais, há uma janela para se diferenciar. Empresas que avançarem para implementação avançada nos próximos 12-18 meses terão vantagem competitiva.
- O crescimento de 25% em IA tradicional é tão importante quanto o de 23% em generativa. IA generativa atrai mais atenção, mas IA tradicional (modelos preditivos, classificação automatizada, otimização) frequentemente entrega ROI mais rápido em finanças.
- O setor financeiro é natural early adopter. No Brasil e no México, finanças lideram a adoção de IA. Isso significa que ferramentas, casos de uso e melhores práticas estão mais disponíveis para este setor.
Ações práticas para esta semana
- Posicione sua empresa na pirâmide de maturidade. Use os cinco estágios do estudo (exploração, implementação inicial, implementação avançada, liderança) para mapear onde você está. Defina o que seria necessário para subir um nível.
- Combine IA tradicional e generativa. Não abandone modelos preditivos e analytics em favor de IA generativa. A combinação de ambos — previsão com modelos tradicionais e interpretação/comunicação com IA generativa — é mais poderosa que qualquer um isoladamente.
- Resolva o problema de dados primeiro. Antes de investir em ferramentas de IA generativa, avalie a qualidade, integração e governança dos seus dados financeiros. Esse é o investimento com maior retorno de longo prazo.
- Defina uma política de uso de IA. Estabeleça regras claras sobre quais dados podem ser usados com quais ferramentas, quem pode acessar os resultados e como garantir conformidade regulatória. Políticas claras aceleram a adoção — ambiguidade a paralisa.