De ferramenta a colega: a evolução da percepção sobre IA entre profissionais financeiros chineses

Pesquisa do Shanghai National Accounting Institute mostra mudança de 'uso de ferramenta' para 'colaboração humano-máquina'.

Em 2020, quando o Shanghai National Accounting Institute (SNAI) realizou sua pesquisa anual com mais de 5.300 profissionais de contabilidade e finanças na China, as tecnologias mais citadas como impactantes eram cloud computing, faturamento eletrônico e big data. IA aparecia mais como promessa do que como prática. Cinco anos depois, o cenário mudou radicalmente: pesquisas recentes mostram que profissionais financeiros chineses não apenas usam IA — estão redefinindo sua relação com ela, passando de "uso de ferramenta" para "colaboração humano-máquina".

Essa evolução importa porque a China é, ao mesmo tempo, laboratório e espelho. Laboratório porque testa modelos de IA em escala que o resto do mundo ainda não alcançou. Espelho porque as tensões e oportunidades que profissionais chineses enfrentam são as mesmas que profissionais de finanças ao redor do mundo vão enfrentar em breve.

A trajetória: de RPA a colaboração inteligente

Fase 1 (2017-2020): IA como automação de tarefas

Na primeira pesquisa do SNAI sobre tecnologias impactantes (2017), o foco estava em RPA (Robotic Process Automation) e ferramentas de automação básica. A percepção dominante era:

  • IA como substituto de tarefas repetitivas — lançamentos contábeis, classificação de documentos, reconciliação simples
  • Profissionais viam a tecnologia como ameaça ao emprego mais do que como aliada
  • Adoção concentrada em grandes corporações estatais e instituições financeiras

O top 10 de tecnologias impactantes em 2020 refletia essa visão: cloud computing, faturamento eletrônico, big data, arquivamento digital, RPA, ERP, blockchain, pagamentos móveis, mineração de dados e auditoria assistida por computador. IA não aparecia como categoria separada — estava embutida em RPA e analytics.

Fase 2 (2021-2023): IA como ferramenta inteligente

Com a chegada de modelos de linguagem mais sofisticados e a aceleração digital pós-pandemia, a percepção começou a mudar:

  • Profissionais passaram a ver IA como ferramenta que aumenta capacidade, não apenas que substitui tarefas
  • O conceito de "intelligent finance" (智能财务) ganhou tração, promovido pelo próprio SNAI em parcerias com a CPA Australia
  • Empresas começaram a criar posições dedicadas — "digital finance manager", "AI finance analyst"
  • O foco migrou de automação pura para geração de insights: análise preditiva, detecção de anomalias, modelagem de cenários

Fase 3 (2024-2026): IA como colega de trabalho

A fase atual marca a transição mais significativa. Pesquisas recentes, incluindo o Business Technology Survey de 2025 da CPA Australia com 244 respondentes do mainland chinês (parte de uma amostra de 1.117 profissionais na Ásia-Pacífico), mostram que:

  • IA, analytics e ferramentas de visualização são agora as tecnologias mais utilizadas por empresas chinesas
  • O uso de IA em negócios acelerou significativamente nos últimos dois anos
  • A percepção evoluiu de "ferramenta que uso" para "parceiro com quem colaboro"
  • Profissionais falam de "colaboração humano-máquina" em vez de "automação"

Essa mudança semântica não é trivial. Quando alguém diz que "usa uma ferramenta", implica controle total e responsabilidade humana. Quando diz que "colabora com IA", reconhece que o sistema contribui com julgamento, insight e capacidade que o humano sozinho não teria.

O que impulsiona essa mudança na China

Vários fatores convergem para explicar por que a China está na vanguarda dessa evolução perceptual:

Escala de implementação

A China tem escala para implementar IA em finanças de formas que outros países não conseguem replicar facilmente:

  • Estatais (SOEs) com centenas de milhares de funcionários implementam sistemas de IA que processam milhões de transações por dia
  • O tesouro digital chinês, promovido pela SASAC (Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais), padronizou o uso de IA em tesouraria corporativa em dezenas de grandes empresas
  • Bancos digitais chineses como WeBank e MYbank processam pedidos de crédito em segundos usando IA, criando uma expectativa de velocidade que se espalha para finanças corporativas

Ecossistema de LLMs locais

A China desenvolveu um ecossistema próprio de modelos de linguagem:

  • YongGPT — primeiro LLM empresarial focado em serviços financeiros
  • Ernie (Baidu) e Tongyi Qianwen (Alibaba) — modelos fundacionais com aplicações financeiras
  • DeepSeek — modelo de código aberto que compete em performance com modelos ocidentais a uma fração do custo

Esses modelos são treinados com dados em mandarim e adaptados ao contexto regulatório chinês, o que facilita a adoção por profissionais locais.

Programas de capacitação estruturados

O SNAI tem sido protagonista nessa transição, oferecendo programas como:

  • Treinamento avançado em IA para gestão financeira — programas intensivos de três dias para executivos financeiros
  • Fórum de Finanças Inteligentes — evento co-organizado no World AI Conference anual
  • Pesquisas anuais que monitoram a evolução da percepção dos profissionais

O fato de uma instituição vinculada ao Ministério das Finanças investir ativamente em formação de IA sinaliza que essa não é uma tendência bottom-up — é política de Estado.

Cultura de adoção tecnológica

A sociedade chinesa tem um nível de conforto com tecnologia financeira que facilita a aceitação de IA:

  • Pagamentos digitais são ubíquos — a maioria dos chineses usa WeChat Pay ou Alipay diariamente
  • Super-apps integraram serviços financeiros à vida cotidiana
  • A transição de papel para digital aconteceu mais rapidamente do que em mercados ocidentais

Lições para profissionais financeiros fora da China

A experiência chinesa oferece insights valiosos para quem está em outros mercados:

1. A resistência é temporária, a adaptação é inevitável

A trajetória chinesa mostra que a percepção muda em fases previsíveis: medo, aceitação, adoção e, finalmente, colaboração. Se seu time ainda está na fase de medo ou aceitação, isso é normal — mas investir em familiarização acelera a transição.

2. Capacitação institucional faz diferença

O papel do SNAI como formador é fundamental. Quando uma instituição respeitada valida e treina profissionais em IA, a barreira psicológica de adoção cai significativamente. No Brasil, instituições como CFC, CVM, FIPECAFI e IBEF poderiam desempenhar papel semelhante.

3. Modelos locais importam

A existência de LLMs treinados em mandarim e adaptados ao contexto chinês facilitou a adoção. Para a América Latina, o desenvolvimento de modelos adaptados ao português e espanhol — com conhecimento de normas contábeis locais (IFRS/CPC), legislação tributária e terminologia regional — será igualmente importante.

4. A mudança de linguagem precede a mudança de prática

Quando profissionais passam a falar de "colaboração" em vez de "automação", estão sinalizando uma mudança mais profunda na mentalidade. Líderes financeiros podem promover essa mudança deliberadamente, ajustando a linguagem da organização em torno de IA.

O continuum de maturidade

Com base na experiência chinesa, podemos mapear um continuum de maturidade na relação profissional-IA:

Nível Percepção Comportamento
1. Resistência "IA vai substituir meu emprego" Evita contato, desconfia dos resultados
2. Ferramenta "IA faz tarefas que eu não quero fazer" Usa para automação de processos repetitivos
3. Assistente "IA me ajuda a ser mais produtivo" Usa para análises, insights e recomendações
4. Colega "IA contribui com perspectivas que eu não teria" Colabora em decisões, valida hipóteses, co-cria
5. Parceiro estratégico "IA e eu, juntos, entregamos mais que qualquer um sozinho" Redesenha processos inteiros em torno da colaboração

A maioria dos profissionais financeiros no Ocidente está entre os níveis 2 e 3. Na China, os mais avançados já operam no nível 4. O nível 5 ainda é aspiracional em quase todos os lugares.

Ações práticas para esta semana

  1. Faça uma autoavaliação. Em qual nível do continuum acima você se situa? E seu time? Ser honesto sobre o ponto de partida é o primeiro passo para avançar.
  2. Mude a linguagem. Comece a falar de "colaboração com IA" em vez de "automação por IA" nas conversas com seu time. A mudança semântica parece sutil, mas influencia a mentalidade.
  3. Experimente o nível 4. Pegue uma decisão financeira real (aprovação de crédito, alocação de budget, análise de investimento) e peça a uma IA para analisar os dados e oferecer uma perspectiva. Compare com sua análise. Onde a IA viu algo que você não viu?
  4. Invista em capacitação estruturada. Busque programas de formação em IA aplicada a finanças — de cursos online a programas presenciais. No Brasil, FIPECAFI, FGV e IBMEC já oferecem opções relevantes.
  5. Acompanhe o que a China está fazendo. O país está dois a três anos à frente em muitas aplicações de IA em finanças. O que acontece lá tende a chegar aqui — com adaptações.