O ERP do futuro será AI-native: Rillet, DualEntry, Doss e a nova geração
Startups que levantaram mais de US$ 200 milhões estão reconstruindo ERPs do zero com IA no centro da arquitetura.
Em menos de 12 meses, a Rillet levantou mais de US$ 100 milhões de investidores como Andreessen Horowitz, Sequoia e ICONIQ. A DualEntry saiu do stealth mode com US$ 90 milhões em Series A, liderada por Lightspeed e Khosla Ventures, com valuation de US$ 415 milhões. A Doss captou US$ 18 milhões da Theory Ventures. Juntas, essas três startups representam mais de US$ 200 milhões apostados em uma única tese: o ERP do futuro será construído do zero com IA no centro.
Não estamos falando de ERPs tradicionais com um módulo de IA acoplado. Estamos falando de sistemas projetados desde a primeira linha de código para funcionar com inteligência artificial como arquitetura fundamental. A diferença é estrutural — e as implicações para quem trabalha com finanças corporativas são profundas.
Por que os ERPs tradicionais não bastam mais
Para entender o apelo dos ERPs AI-native, precisamos reconhecer as limitações dos sistemas que dominam o mercado há décadas.
Arquitetura dos anos 1990
SAP, Oracle e NetSuite foram projetados em uma era em que dados eram inseridos manualmente, processos eram lineares e relatórios eram gerados uma vez por mês. A arquitetura reflete isso:
- Formulários rígidos que exigem preenchimento manual de dezenas de campos
- Workflows sequenciais que não se adaptam a exceções
- Relatórios batch que olham para o passado em vez de prever o futuro
- Integrações complexas que exigem middleware caro e projetos de meses
IA como afterthought
Quando incumbentes adicionam IA aos seus sistemas, fazem isso como camada adicional — não como redesenho fundamental. O resultado:
- Funcionalidades de IA que não acessam todo o contexto do sistema
- Performance limitada porque a arquitetura não foi otimizada para inferência em tempo real
- Experiência do usuário fragmentada — ora trabalhando no modo tradicional, ora interagindo com IA
Custo e complexidade
Implementações de ERPs tradicionais em empresas de médio e grande porte custam entre US$ 500 mil e US$ 5 milhões e levam de 6 a 18 meses. Para startups e scale-ups, esses números são proibitivos. E mesmo para grandes empresas, o TCO (custo total de propriedade) é frequentemente subestimado.
Rillet: contabilidade SaaS reinventada
A Rillet se posiciona como o "ERP AI-native para empresas com modelos de receita complexos" — especialmente SaaS e empresas de assinatura.
Números e tração
- Mais de US$ 100 milhões captados em menos de um ano
- US$ 25 milhões em Series A (Sequoia) seguidos por US$ 70 milhões em Series B (Andreessen Horowitz e ICONIQ) — apenas 10 semanas de intervalo entre as rodadas
- Mais de 200 clientes desde o lançamento
- ARR dobrou nas últimas 12 semanas antes do anúncio da Series B
O que faz diferente
A Rillet não é um software de contabilidade com IA adicionada. É um sistema construído por contadores que também são engenheiros, com três diferenciais principais:
- Reconhecimento de receita automatizado — o sistema entende contratos SaaS (ASC 606) e gera os lançamentos contábeis automaticamente, sem planilhas intermediárias
- Fechamento contábil 4x mais rápido — processos que levavam semanas em ERPs tradicionais são concluídos em dias
- IA embutida em cada etapa — desde a classificação de transações até a geração de relatórios financeiros em linguagem natural
Para quem é
Empresas de tecnologia e SaaS com receita recorrente complexa (múltiplos planos, upsells, downgrades, contratos multianuais) que não querem lidar com a rigidez de um NetSuite ou SAP.
DualEntry: o ERP de US$ 415 milhões que ninguém viu chegar
A DualEntry fez algo raro no mundo de enterprise software: saiu do stealth mode com US$ 90 milhões já captados e um valuation de US$ 415 milhões — antes de ter um produto no mercado geral.
Os investidores por trás
A rodada foi liderada por Lightspeed Venture Partners e Khosla Ventures, com participação do GV (Google Ventures). Esses não são investidores que apostam em modas — são fundos com track record em enterprise software que fazem due diligence rigorosa.
A tese
A DualEntry está construindo um ERP "from scratch" com IA generativa como fundação. A premissa é que os ERPs atuais foram desenhados para humanos inserirem dados e seguirem processos. Um ERP AI-native é desenhado para IA processar dados e humanos supervisionarem e decidirem.
O que sabemos
- Foco inicial em contabilidade e finanças — os processos mais padronizados e com maior volume de dados estruturados
- Planos de rollout mais amplo no início de 2026
- A equipe está expandindo o time de engenharia para acelerar o desenvolvimento
- A visão de longo prazo é substituir ERPs legados em empresas de médio porte
O que ainda não sabemos
A DualEntry ainda não revelou detalhes técnicos do produto. O valuation elevado para uma empresa em estágio inicial reflete a aposta dos investidores na equipe e na tese — e também o tamanho do mercado endereçável (ERPs movimentam mais de US$ 50 bilhões por ano globalmente).
Doss: o ERP adaptativo
A Doss, fundada em 2023, traz uma abordagem diferente: em vez de focar exclusivamente em contabilidade, propõe unificar finanças, estoque, pedidos e produção em uma única plataforma inteligente.
Números
- US$ 18 milhões em Series A, liderada pela Theory Ventures (de Tomasz Tunguz, um dos investidores mais respeitados em SaaS)
- Alcançou US$ 1 milhão em ARR usando IA para acelerar radicalmente seu próprio processo de vendas
- Empresa com apenas dois anos de existência
O produto: DossARP
O produto principal, batizado de DossARP (Adaptive Resource Platform), unifica:
- Gestão de estoque — rastreamento em tempo real com previsão de demanda
- Processamento de pedidos — automação do ciclo order-to-cash
- Contabilidade — lançamentos automáticos e reconciliação inteligente
- Produção — planejamento e controle de manufatura
Diferencial: adaptabilidade
O "adaptive" no nome não é marketing. A Doss usa IA para:
- Aprender com os padrões de cada empresa e ajustar workflows automaticamente
- Sugerir otimizações baseadas em dados históricos e condições de mercado
- Reduzir configuração manual — em vez de parametrizar centenas de regras, o sistema infere a maioria delas
Para quem é
Empresas de médio porte com operações de produção e distribuição que precisam de um ERP integrado, mas não querem (ou não podem) pagar por SAP ou Oracle.
O que separa ERPs AI-native dos tradicionais
A diferença fundamental não é que ERPs AI-native "têm IA" — é que foram arquitetados para IA:
| Aspecto | ERP tradicional com IA | ERP AI-native |
|---|---|---|
| Entrada de dados | Humano insere, IA sugere | IA processa, humano valida |
| Workflows | Predefinidos, com IA em pontos específicos | Dinâmicos, IA adapta o fluxo |
| Relatórios | Gerados por templates, IA complementa | Gerados por IA, humano revisa |
| Integração | APIs acopladas a módulos existentes | IA conecta dados de qualquer fonte |
| Implementação | Meses/anos, com consultoria pesada | Semanas, com IA acelerando configuração |
| Modelo de dados | Esquema rígido definido na implementação | Esquema flexível que evolui com o uso |
Os riscos que não podem ser ignorados
Apesar do entusiasmo (justificado), há riscos importantes para quem considera migrar:
Maturidade do produto
Rillet é o mais avançado dos três, com 200+ clientes. DualEntry ainda não lançou publicamente. Doss tem dois anos e está em expansão. Nenhum deles tem o histórico de 30 anos de um SAP ou Oracle.
Lock-in e continuidade
Startups podem pivotar, ser adquiridas ou falhar. Para uma função crítica como contabilidade, a continuidade do fornecedor é essencial. Os investimentos pesados (US$ 200+ milhões) mitigam parcialmente esse risco, mas não o eliminam.
Regulação e auditabilidade
ERPs tradicionais foram testados e validados por décadas de auditorias. ERPs AI-native precisarão provar que suas decisões automatizadas são auditáveis, rastreáveis e conformes com normas contábeis.
Migração de dados
Sair de um ERP tradicional para um AI-native não é trivial. Décadas de dados históricos, customizações e integrações precisam ser migradas — um processo que pode ser mais complexo e caro do que a implementação do novo sistema.
O futuro provável
A tendência é clara: em cinco anos, a distinção entre "ERP com IA" e "ERP AI-native" será tão fundamental quanto a distinção entre "software on-premise" e "software cloud" foi há uma década. Quem adotar cedo terá vantagem; quem esperar demais pagará o preço da migração tardia.
Os cenários mais prováveis:
- Incumbentes vão reagir — SAP, Oracle e NetSuite lançarão versões cada vez mais "AI-powered" de seus produtos, acelerando a commoditização de funcionalidades básicas
- Consolidação no mercado de startups — dos dezenas de ERPs AI-native que estão surgindo, poucos sobreviverão como independentes. Espere aquisições.
- Segmentação por verticais — Rillet para SaaS, Doss para manufatura, e outros players para varejo, serviços, saúde. O ERP genérico está perdendo relevância.
- Hybrid approaches — muitas empresas manterão ERPs tradicionais para o core e usarão ERPs AI-native para funções específicas (contabilidade, FP&A, procurement) em paralelo.
Ações práticas para esta semana
- Avalie a idade do seu ERP. Se seu sistema tem mais de 10 anos e exige customizações pesadas, comece a pesquisar alternativas AI-native — mesmo que a migração não aconteça agora, o planejamento precisa começar.
- Teste um ERP AI-native em paralelo. Se sua empresa é SaaS, experimente a Rillet para fechamento contábil. Se opera com estoque e manufatura, olhe para a Doss. Testar em paralelo reduz risco e gera aprendizado.
- Monitore a DualEntry. Quando o produto for lançado publicamente (previsto para início de 2026), avalie se atende ao seu caso de uso. Empresas que entrarem como early adopters provavelmente terão condições comerciais vantajosas.
- Questione seu integrador atual. Pergunte ao seu parceiro de implementação de ERP: "Qual é a estratégia de IA do sistema que usamos?" Se a resposta for vaga, é hora de diversificar a conversa.
- Priorize auditabilidade nas avaliações. Ao avaliar ERPs AI-native, verifique: os lançamentos automáticos são rastreáveis? A IA documenta seu raciocínio? Auditores externos já validaram o sistema? Essas questões são não-negociáveis para finanças corporativas.